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Thursday, 30 September 2010

A DEVOÇÃO DOS TIMORENSES A SÃO MIGUEL ARCANJO


Por: Dom Carlos Filipe Ximenes Belo

Em 1985, visitava eu, pela primeira vez, a então Missão de Same. Nessa primeira visita, fiquei assaz impressionado com a beleza da paisagem, da vegetação luxuriante, da abundância de nascentes, da simpatia e nobreza da alma dos habitantes de Manufahi, das danças, do folclore e dos seus cantos.

Mas, o que mais me impressionou, foi a existência de uma capela, pequenina, mas que tinha por Padroeiro, um grande santo, ou melhor, um grande anjo, o Arcanjo São Miguel. Não se sabe a data da sua construção, mas, naqueles tempos, estamos a referir-nos ao século XX, a capela foi o centro de vida cristã de muitos católicos de Manufahi.

E eu, na altura pensava: esta gente foi muito guerreira e causou muitos problemas aos Portugueses, nos finais do século XIX e no primeiro quartel do século XX. Dom Duarte Soto Maior da Costa e o seu filho Dom Boaventura Soto Maior da Costa não estariam inspirados pelo “Anjo dos supremos combates” na luta contra algumas injustiças praticadas em Timor?

Em 1983, na primeira visita a Oe-Cussi, estive em Padiai. Ali existia, no passado, uma Capela dedicada a nossa Senhora de Fátima. Mas, com a entrada dos Padres Verbitas (1975), essa antiga capela foi demolida, e, em seu lugar, construiu-se uma Igreja nova, bastante grande e bonita, e que passou a ser dedicada ao Arcanjo São Miguel. A Povoação, Padiai, no passado era conhecido como Nuno Heno era uma Estação missionária muito florescente. No século XVII, Paidai tinha o nome da Ainmata. Ali residia Dom Domingos da Costa, Topaz, que foi régulo e governador interino de Timor (1715-1718) e, chegou a entrar em conflito com o Bispo Dom Frei Manuel de Santo António.

Mas, era em Dili (Bidau, Kulu Hun, Balide, Comoro) que me foi dado testemunhar a devoção de alguns cristãos para com o Arcanjo: tinham no Oratório imagens (pequenas estátuas), e nas paredes de palapa, os santinhos do Arcanjo S. Miguel. Eram anos de resistência à ocupação das Forças Armadas Indonésias (ABRI). Ainda hoje, algumas pessoas procuram e compram as estátuas (imagens) do Arcanjo S. Miguel.

Hoje, dia 29 de Setembro, ocorre a Festa litúrgica dos Arcanjos S. Miguel, S. Gabriel S. Rafael.

Sabemos que existem espíritos puros. Entre os espíritos puros, denominados Anjos, sobressaem três, que têm sido especialmente honrados através dos séculos e a Liturgia recorda-os na mesma celebração: São Miguel, São Gabriel e São Rafael.

São Miguel: o nome significa “quem é como Deus”. Ele é o príncipe Dos Anjos; é identificado por vezes, com o Anjo do turíbulo de oiro de que fala o Apocalipse. É o Anjo dos supremos combates contra Satanás, contra o mal. Na tradição da Igreja, S. Miguel é protector do cristão na hora da viagem para a eternidade.

São Gabriel: o nome significa “Deus é a minha força” (cf. Dan 9, 21-22). É o enviado das grandes embaixadas divinas: anuncia a Zacarias o nascimento de S. João Baptista, o Precursor do Messias (cf. Lc 1,19). Anuncia à virgem de Nazaré, a Incarnação do Verbo (cf. Lc 1,26). Em 1951, o Papa XII, de Félix memória, declarou S. Gabriel, Patrono das Telecomunicações. A revista SEARA, Boletim da Diocese de Dili, refere que na década dos anos 50 do século XX, celebrava-se em Dili uma Missa em honra de São Gabriel, pela intenção dos jornalistas.

São Rafael: o nome significa “ Medicina de Deus”. Este Arcanjo manifesta-se na bíblia como diligente e eficaz protector da família de Tobias.(cf. Tb 11-12). É considerado como um Arcanjo conselheiro, companheiro de viagem, defensor e médico.

Os Timorenses têm motivos para celebrar estes três Arcanjos e invocá-los como patronos: São Miguel pode incutir o espírito do combate espiritual contra o mal, o satanás e o pecado; combate contra a corrupção, o ódio, as vinganças e os maus hábitos. São Gabriel pode servir de exemplo aos jornalistas e todos aqueles que trabalham nos meios de comunicação social anunciando notícias e mensagens de esperança, de paz, concórdia e amor. São Rafael pede ser o companheiro de todas pessoas que vivem isoladas nas aldeias das montanhas e planícies de Timor, e, que ainda não podem gozar os bens da civilização, como os cuidados médicos, acompanhamento e assistência.

Porto, 29 de Setembro de 2010.

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