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Wednesday, 23 June 2010

ISTO É TIMOR.HABITUA-TE OU DESISTE


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TimeOut-Terça-feira, 22 de Junho de 2010

Pedro Rosa Mendes está de volta aos livros com um romance trágico, erudito, desencantado e fascinante sobre Timor. João Miguel Tavares conversou com o autor.

Pedro Rosa Mendes escreveu um livro de quase 350 páginas sobre Timor onde qualquer leitor menos empenhado em penetrar nos meandros da cultura javanesa e timorense corre o risco de ficar à porta. Tudo ali esbanja erudição, desde as reflexões sobre a arquitectura local às descrições dos mais pequenos gestos de certas artes marciais (que o autor, aliás, se deu ao trabalho de aprender), passando pela análise detalhada dos efeitos da vasta colecção de punhais javaneses na carne humana. E no entanto, quando se conversa com Rosa Mendes (num telefonema Lisboa-Paris, onde é actualmente correspondente da Agência Lusa), ele garante-nos que o seu interesse por Timor é acessório.

“Não tenho contas a ajustar com Timor. O que me interessa mais é Portugal. E o facto de toda a gente em Portugal ser mais timorense do que os timorenses, acabando por tornar Timor refém da sua causa.”Traduzindo, isto significa que se criou uma ficção chamada “causa timorense” que não aguenta um minuto de análise séria (“uma boa causa nem sempre produz um bom efeito”, lê-se no romance). Pedro Rosa Mendes, à beira de completar 42 anos, sabe do que fala: foi correspondente da Lusa no território entre 2007 e 2009 e em Novembro de 2008 escreveu no jornal Público um ensaio muito duro, chamado “Timor-Leste: a ilha sustentável”.

O título resume a tese, e os exemplos de “insustentabilidade” que ia desfiando ao longo do texto deram que falar, cabendo a Rosa Mendes a desagradável tarefa de acordar os portugueses desse belo sonho que era a construção de um novo país.

O que o seu romance, Peregrinação de Enmanuel Jhesus, vem demonstrar, é a dificuldade de construir um país novo quando em Timor tudo é velho de séculos, com uma poderosíssima cultura milenar e uma relação com a memória que não permite apagar a História para reescrevê-la de novo. Rosa Mendes, que até ao fim dos seus dias há-de carregar a maldição de ter de discutir perpetuamente as fronteiras do jornalismo e da literatura (tema favorito de debate desde o lançamento de Baía dos Tigres, em 1999, o seu primeiro romance-que-não-era-bem-romance-mas-que-bem-vistas-as--coisas-sim-até-que-era-romance), faz questão de esclarecer que o actual estado de Timor “não é de todo o ponto de partida ou chegada deste livro”, que aliás começa (e acaba) na altura do referendo que ditou a independência do país, em 1999. “Não me ia dar ao trabalho de escrever um romance inteiro para repetir uma opinião que ficou arrumada no ensaio que fiz para o Público.

Além do mais, acredito que não se podem analisar as coisas mais fundas de Timor com os códigos do jornalismo.”Daí este romance sobre Alor, jovem arquitecto indonésio com um atlas português do século XVI tatuado na pele, que chega a Timor Leste no ano do referendo com a função de construir a casa do líder independentista da ilha. Mais tarde desaparecerá no meio dos conflitos, e este romance é composto pelos alegados autos de inquérito levados a cabo para averiguar o seu desaparecimento.

O livro começa com uma cabeça cortada numa caixa, e é sempre assim, no fio da navalha geopolítica, que se desenrola – onde a mais alta poesia (“quis partilhar com o leitor, em cada página, o enorme prazer que me deu descobrir coisas naquela região”, diz Rosa Mendes) coabita com o desencanto próprio das tragédias que ninguém consegue impedir (“não podia ter feito um romance festivo sobre Timor, porque não foi essa festividade que vi”), mas com um tal desejo de ir ao fundo das coisas (“entre a minha experiência individual de Timor e o livro há um trabalho enorme de distanciamento através da pesquisa bibliográfica”) que o leitor ou mergulha decidido naquela realidade, ou irá inevitavelmente perder o pé pelo caminho.

O resultado é uma obra complexa mas poderosíssima, onde Pedro Rosa Mendes inflecte aquele que havia sido o seu percurso de escrita até aqui. Se nos romances anteriores era através das técnicas do jornalismo que ele chegava à literatura, em Peregrinação de Enmanuel Jhesus a literatura é como se fosse um meio para chegar ao jornalismo, tal a profundidade do seu retrato do país. Está a ver a canção dos Trovante sobre Timor? Atire o disco fora e leia este livro.

Peregrinação de Enmanuel Jhesus
Pedro Rosa Mendes
Dom Quixote, 16,90€

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