My photo
Um escritor, um poeta, um aventureiro,

Thursday, 3 December 2009

Timor Leste - Indonésia: Os laços entre os dois países são um obstáculo à justiça


.

Por MATT CROOK - Tradução de ZIZI TIMOR OAN

DÍLI, 2 Dezembro (IPS) - Os líderes de Timor Leste dizem que trazer à justiça os autores das atrocidades cometidas durante a ocupação do exército indonésio iria azedar as relações entre os países vizinhos, mas nem todos estão tão entusiasmados para perdoar e seguir em frente.

Apesar da teimosia a alto nível, a justiça ainda pode ser alcançada enquanto as pessoas continuarem a fazer suas vozes ouvidas, disseram observadores.

“Falar sobre a justiça é parte da realização da justiça, assim como falar sobre a independência era parte de conseguir a independência" disse à IPS o Dr. Clinton Fernandes, um especialista em Timor-Leste da Australian Defence Force Academy.

"Os cidadãos, como as Nações Unidas, não têm suas próprias forças armadas ou forças policiais, mas podem criar a vontade política para alcançar a justiça simplesmente falando sempre sobre isso", acrescentou.

Durante anos, o povo de Timor Leste e apoiantes internacionais empurraram para o encerramento dos crimes contra a humanidade cometidos durante a ocupação militar indonésia entre 1975 e 1999.

Timor Leste tornou-se independente em 2002, mas por um custo de 180.000 vidas, mortos durante a violência ou então deixados para morrer de fome ou de doença.

A liderança da nação é que aderiu à linha de que se se reclamarem justiça a Indonésia pode fechar a fronteira com Timor Ocidental, bloquear os laços comerciais ou reconsiderar o futuro dos 6.000 ou mais estudantes timorenses a estudar na Indonésia.

Em Agosto, a Amnistia Internacional publicou o relatório "We Cry for Justice', em que uma das recomendações foi para que o Conselho de Segurança da ONU criasse um plano global para acabar com a impunidade.

O relatório já foi traduzido para tétum (uma das línguas oficiais do Timor Leste) e Bahasa Indonésia na esperança de que as pessoas em Timor Leste e Indonésia possam ver que suas vozes são ouvidas.

"Cada voz conta para ver a mudança no terreno, incluindo a cobertura da média sobre questões de justiça", disse Isabelle Arradon, pesquisador sobre a Indonésia e Timor-Leste para a Amnistia Internacional.

"A cobertura contínua antes das discussões sobre Timor Leste no Conselho de Segurança das Nações Unidas em Fevereiro de 2010 é bem-vinda para mostrar que a comunidade internacional apoia os apelos das vítimas no terreno, e para lembrar aos membros do Conselho de Segurança da ONU que o ponto de vista do governo de Timor Leste não é compartilhada por muitos no país ", acrescentou ela.

A posição firme dos líderes da nação tem sido criticada pela ONU, que mantém que os fortes laços com a Indonésia não devem impedir a necessidade de justiça.

"Para pedir a responsabilização das pessoas que fizeram coisas realmente horríveis não invalida o relacionamento, mas só reforça ", disse Louis Gentile, representante do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

Com o recente passar de mais um aniversário do massacre de Timor Leste, há desilusão nas ruas de Díli.

Júlio Barreto, 36 anos, estava lá em Santa Cruz, em Díli, em 12 de Novembro de 1991, quando as tropas indonésias dispararam contra uma multidão de manifestantes pacíficos, matando 270 deles. "Não nos apercebemos que as tropas se estavam a preparar para disparar contra nós", disse ele. "Eu não gosto deles, as pessoas que fizeram isso são bem conhecidos como violadores dos direitos humanos e todos sabem que eles estiveram envolvidos".

Tal como muitos em Timor Leste, Barreto sente-se decepcionado com os lideres da Nação do seu país, pela falta de responsabilidade para com o Massacre de Santa Cruz e outros crimes contra a humanidade.

"Em vez de me stressar e pensar naquelas coisas que talvez nunca irão acontecer, eu prefiro concentrar-me no trabalho em vez de pensar muito sobre trazer as pessoas à justiça, porque têm de ser os líderes a fazê-lo e não as pessoas comuns como nós."

A questão da justiça foi uma questão sensível para os governos anteriores, mas talvez não tenha sido analisada tanto como na coligação governamental actual de Xanana Gusmão, principalmente nas últimas semanas, quando a libertação de um ex-líder da milícia indonésia provocou um frenesim na média internacional.

Maternus Bere, ex-comandante da milícia pró-Indonésia, Laksaur, foi indiciado pela Unidade de Crimes Graves das Nações Unidas por crimes contra a humanidade, incluindo a sua parte na Igreja de Suai Massacre em 1999, em que cerca de 200 pessoas inocentes foram assassinadas.

Bere atravessou a fronteira do vizinho Timor Ocidental, e regressou a Suai, uma cidade em Timor Leste, em Agosto, para visitar sua família. Ele foi preso e ordenado pelo tribunal de Suai a ser detido, mas directivas vieram de Gusmão para liberá-lo para a custódia da embaixada indonésia em Díli a 30 de Agosto, durante as comemorações do 10º aniversário do voto pela independência.

Bere passou em segredo dois meses na embaixada, antes de ser levado de volta à Indonésia, em 30 de Outubro, fazendo dele um homem livre.

Em 2003, a Unidade de Crimes Graves indiciou 391 pessoas, incluindo Bere, por crimes contra a humanidade cometidos em Timor Leste, no entanto, a maioria deles têm vivido como homens livres, na Indonésia.

A decisão inicial de libertar Bere poderia ter derrubado o governo, o partido de oposição Fretilin e aliados apresentaram uma moção de censura que foi debatida em 12 de Outubro.

Xanana Gusmão defendeu-se, chamando de uma "decisão política" a libertação de Bere.

"O Ministro dos Negócios Estrangeiros indonésio, Hassan, disse que se não houvesse nenhuma solução para o caso de Martenus Bere, este caso poderia afectar o relacionamento entre os dois países", disse Gusmão, ao Parlamento. "Ele acrescentou que a nossa recusa em cooperar em matéria tão sensível para a Indonésia poderia obrigar o Estado indonésio a rever a sua política diplomática para Timor Leste."

O governo de Gusmão sobreviveu ao voto de desconfiança em que os observadores disseram ser um sinal de estabilidade política no país, mas a questão de justiça é aquela que se recusa a acalmar-se.

"A luta pela justiça não é uma competição entre indonésios e não-indonésios. Pelo contrário, é uma disputa entre aqueles ao redor do mundo que querem que a justiça prevaleça e aqueles que querem ver a impunidade prevalecer", disse Fernandes no memorial em Outubro de Sander Thoenes, o "correspondente" do Financial Times assassinado em Timor Leste há 10 anos. (FIM/2009)

No comments:

Post a Comment