My photo
Um escritor, um poeta, um aventureiro,

Monday, 20 July 2009

Zacarias da Costa - "TIMOR-LESTE ESTÁ LONGE DE SER UM ESTADO FALHADO"

.
Por ABEL COELHO DE MORAIS – Diário de Notícias – 19 Julho 2009

O ministro dos Negócios Estrangeiros timorense, Zacarias da Costa, passou ontem em Lisboa, a caminho da Cidade da Praia, tendo falado ao DN sobre a situação no seu país e sobre alguns aspectos do encontro da CPLP ( ver pág. 33) em que participa hoje e amanhã em Cabo Verde.

Participa numa reunião de MNE da CPLP em que, segundo o mais recente número da revista Foreign Policy, dois Estados membros - Timor-Leste e Guiné-Bissau - correm o risco de se tornarem Estados falhados. O que pode ser feito para evitar isso?

A avaliação da Foreign Policy não se baseia em dados actualizados; não houve uma visita, pelo menos a Timor-Leste, para constatarem a evolução verificada nestes dois últimos anos. Se olharmos apenas a crise de 2006 facilmente se chega à conclusão de que o país estaria à beira de falhar. Mas não. Timor-Leste está longe de ser um Estado falhado. O Governo tem feito um grande esforço no sentido de fazer reformas, de lidar com os maiores desafios, como a questão dos peticionários, os deslocados internos, as necessidades dos jovens em termos de emprego e formação profissional ou educação. E hoje estamos em condições de avançarmos para a recuperação económica.

Mas o que está a ser feito para neutralizar esses factores de Estado falhado?

Estamos a preparar um plano de construção infra-estruturas, apostamos no desenvolvimento dos recursos humanos, com o envio de estudantes para países da região; aumentámos o número de bolsas de estudo no exterior. Os problemas que existem hoje são substancialmente diferentes dos que marcaram a conjuntura de 2006.

E quanto a iniciativas no âmbito da CPLP para os dois Estados?

As iniciativas para Timor-Leste estão avançadas, já que desde Novembro 2007, falámos de um plano estratégico, a ser aprovado na Praia.
.
O que prevê esse plano?

O plano contempla as áreas da justiça, administração do território e formação de jornalistas. Áreas identificadas como prioritárias e que serão contempladas de imediato após a reunião da Praia. Ao mesmo tempo, prepara-se a abertura de uma delegação da CPLP em Díli este ano, um passo importante para ajudar a concretizar o plano que referi.

E quanto à Guiné-Bissau?

Julgo que vão aparecer propostas; nós próprios fizemos algumas semelhantes às contempladas no plano para Timor, além de outras relacionadas com questões de defesa e segurança. Mas existe na CPLP uma ideia clara do que é preciso fazer para ajudar a Guiné-Bissau.

Falou numa aposta nas infra-estruturas em Timor-Leste. Em que áreas estas são necessárias?

Estradas, pontes, portos e aeroportos, energia, são as áreas prioritárias. Além de que precisamos de mais estruturas de apoio à saúde e ao ensino.

Que áreas identifica como prioritárias para o reforço da cooperação bilateral Lisboa-Díli?

A língua portuguesa. Num primeiro momento falou-se na sua reintrodução; hoje temos de falar numa consolidação do português em Timor. Somos unânimes, em Lisboa e Díli, em reconhecer que precisamos fazer mais em termos de formação de recursos humanos em Timor. Que é uma prioridade em que Portugal está bastante envolvido, mas que queremos envolver outros países.

No âmbito da CPLP?

Não só. Um exemplo: temos já a Suécia financiar o desenvolvimento dos currículos.

No plano regional, Timor está a desenvolver parcerias com os Estados vizinhos nalgumas destas áreas?

E não só. No plano agrícola, temos uma colaboração importante com a Indonésia; no plano da segurança, também. Há bastantes elementos da polícia e alguns oficiais treinados nas academias indonésias. Temos mais de quatro mil estudantes na Indonésia; na saúde, estamos a estudar a possibilidade de termos parteiras e enfermeiras para trabalhar no sector da saúde em Timor. No plano da justiça, além de Portugal, temos também o envolvimento da Austrália, que está ainda presente na reforma no sector da defesa.

No plano das relações com a Austrália há neste momento um diferendo sobre a localização do gasoduto ligado à zona de exploração do Greater Sunrise, em que Díli pretende a sua localização na costa Sul de Timor, o que é contestado por Camberra...

Não é propriamente o Governo australiano, mas a companhia que está a liderar o consórcio que irá explorar o Greater Sunrise. Ambos os governos estão interessados na sua localização nos respectivos territórios, mas esperamos que Camberra entenda que se já tem um gasoduto em Darwin, é lógico, até com base nos estudos feitos, que o novo gasoduto venha para Timor-Leste.

Referiu a cooperação com a Indonésia: isto significa que estão a ser ultrapassados as tensões do período da ocupação?

As relações com a Indonésia são hoje excelentes. Os dois Ministérios dos Negócios Estrangeiros estão a desenvolver importante trabalho de cooperação e estão a estudar como concretizar as recomendações da Comissão da Verdade e Amizade. Devo dizer que é anunciada [ hoje, domingo] em Díli a concretização de dois acordos que vão constituir um marco nas relações entre Timor-Leste e a Indonésia. Um, é a simplificação do processo de vistos por parte de Jacarta para todos os passaportes timorenses até um máximo de sete dias; segundo, é o tratamento especial para os jovens timorenses que queiram estudar na Indonésia.

Isto significa que o sentimento na sociedade timorense é de que chegou o momento de ultrapassar o sucedido no passado?

O sentimento é o de que devemos olhar para o futuro. É neste princípio que temos negociado com Jacarta...

Integra um Governo de coligação numa conjuntura complexa - ainda agora começou o julgamento dos envolvidos nas tentativas de assassínio de Ramos- -Horta e Xanana Gusmão - e muito criticado pela oposição. Acredita que o Executivo vai governar até 2012?

A oposição cumpre o seu papel, mas já deixou de contestar a decisão do Presidente de chamar a coligação para o Governo. Por outro lado, temos de apostar no diálogo político; a Fretilin é um partido com experiência de governação, até para reforçar a nossa democracia, que está no princípio. O importante é vermos como encontrámos o país e como está hoje. Mas quero também dizer que, como é natural, há problemas e tensões. Não é fácil gerir uma coligação.

No comments:

Post a Comment