My photo
Um escritor, um poeta, um aventureiro,

Monday, 22 June 2009

Mia Couto: o poeta que se realiza em prosa

MAIS CRUZEIRO - [ 20/06 ]

Juliana Simonetti


Escritor de Moçambique, que lança este mês no Brasil 'Antes de nascer o mundo', fala sobre os autores brasileiros que o influenciam e declara, em referência a Guimarães Rosa, que a savana é o seu sertão

Um dos maiores autores contemporâneos da literatura de língua portuguesa, o africano Mia Couto, está com os bolsos vazios. Estou num luto sem morte, declarou ao Mais Cruzeiro o escritor, que tem livros traduzidos em mais de 20 línguas. Mas para os fãs das obras de Mia, a notícia não deve ser encarada como uma tragédia. Pelo contrário. As colocações do escritor se referem ao fato de que ele acaba de entregar, há aproximadamente dois meses, seu último romance para a publicação. Intitulado Antes de nascer o mundo, o livro chega às livrarias do Brasil ainda este mês, conforme informou a editora Companhia das Letras.

A começar pelo seu próprio nome - Mia Couto nasceu António e, quando tinha dois anos e meio, decidiu que queria se chamar Mia, pela relação de afeto que tinha com os gatos -, o escritor, tal qual um de seus grandes mestres, Guimarães Rosa, é conhecido por inventar palavras - como amardiçoar ou timiudinho - , as quais guarda no bolso antes de ganharem as páginas dos livros. Atualmente, o estoque está esgotado e, para sorte dos leitores, disponível nas prateleiras das principais livrarias do mundo. Anoto tudo o que, ao ser escrito, se pode converter em alimento de invenção. Infelizmente, desde que entreguei um romance para publicação fiquei vazio, esgotado. Sucede sempre assim: depois desse percurso longo de intimidade com personagens que me habitavam, a separação é sempre traumática, explicou por email à reportagem.

Para quem ainda não conhece Mia Couto, não custa registrar o poder das palavras do autor, que escreve prosa como quem faz poesia. Como petiscos aos curiosos, seguem algumas passagens de seus livros: Amar é estar sempre chegando; O pulo é o desajeito humano de ensaiar um voo; Conselhos de minha mãe foram apenas silêncios. Suas falas tinham sotaque de nuvem; Se temos voz é para vazar sentimento. Contudo, sentimento demasiado nos rouba a voz; A lágrima plagiou o oceano; O tempo é o eterno construtor de antigamentes; Falar é fácil. Custa é aprender a calar (confira outras passagens nesta página).

Para quem gosta da literatura dos brasileiros Guimarães Rosa (um poeta que se realiza em prosa, conforme o moçambicano), Mário Quintana, Manoel de Barros, Drummond e Adélia Prado (influências assumidas do escritor), Mia Couto é um prato cheio. Houve um tempo que pensei que os escritores da África, Ásia e América Latina tinham mais histórias para contar. Mas reconheço hoje que isso é um preconceito. De qualquer forma, Mia Couto é um dos escritores da atualidade que mais têm a contar, como atestam as vendas de seus livros pelo mundo. Para se ter uma ideia, em Portugal as tiragens chegam a 50 mil exemplares.

Sócio-correspondente da Academia Brasileira de Letras, vale registrar que o moçambicano também é biólogo e dirige uma empresa de estudos de impacto ambiental em seu país. Filho de portugueses, Couto foi militante da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) e lutou pela independência do país contra Portugal (1964-74). Apesar de seus livros serem de ficção, é possível verificar atitudes políticas claras em seus escritos. Muitos deles descrevem, de maneira bastante poética, as consequências da ocupação européia em continente africano ou, até mesmo, alertam para o problema enfrentado devido às minas terrestres, um terror ainda vivido em seu território. Em O último voo do Flamingo, por exemplo, ele aponta para o perverso negócio praticado em seu país: muitas vezes as próprias empresas produtoras de minas fazem a desminagem, e ela custa mais caro ao poder público do que comprar minas.

Dentro dessa perspectiva, a reportagem indagou se Mia Couto acredita que um escritor pode ser mais importante que um político. A ficção e a realidade, a arte e a política, o escritor e a ação política: tudo se mistura. Nos dias de hoje, a imagem do político está muito saturada e talvez, infelizmente, ela está amarrada a um estereótipo desvalorizado. O escritor está mais protegido desse desgaste, apontou.

A realidade da profissão de biólogo, aliás, serve também de suprimento para a literatura de Mia Couto. Assim como Guimarães escrevia cartas para seu pai em Cordisburgo pedindo-lhe que contasse histórias da cidade, que com a pena do escritor mineiro ganhariam ainda mais encanto, é durante o trabalho de pesquisa de campo que Mia conversa com as pessoas, conhece locais, e garimpa mais histórias para seus escritos. Eu sou biólogo e trabalho em pesquisa de ecologia. Isso me faz visitar constantemente a savana, que é, nesse sentido, o meu sertão. Necessito de um não-lugar onde tudo pode ser plausível. (...) A capacidade de converter tudo em história (diria Rosa, em estória) é um dos grandes atrativos de Moçambique, contou e reforçou : Toda a literatura nasce dessa charneira entre o que se supõe ser realidade e o que é chamado de fantástico.

Na posição de um dos escritores mais influentes e ativos da contemporaneidade, Mia Couto, que não tira de sua cabeceira o Livro do Dessassosego, de Fernando Pessoa, assume também a função de porta-bandeira na campanha pela leitura e afirma: O que importa não é o livro que o leitor lê, mas o quanto ele pode ser lido pelo livro. Agora, aos interessados, basta apenas procurar Antes de nascer o mundo nas prateleiras das livrarias e quem sabe se encontrar na poesia de Mia Couto.

"- Você não me amou o suficiente.

- Para si não há nunca o suficiente.

Não era apenas para ele que não bastava. O suficiente é para quem não ama. No amor, só existem infinitos."

Em 'Venenos de Deus, remédios do Diabo'

"Rir junto é melhor que falar a mesma língua. Ou talvez o riso seja uma língua anterior que fomos perdendo à medida que o mundo foi deixando de ser nosso."

Em Venenos de Deus, remédios do Diabo

http://www.cruzeirodosul.inf.br/materia.phl?editoria=42&id=195378

No comments:

Post a Comment