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Thursday, 12 March 2009

REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DE TIMOR-LESTE

GABINETE DO PRIMEIRO-MINISTRO
ALOCUÇÃODE SUA EXCELÊNCIA O PRIMEIRO-MINISTRO, MINISTRO DA DEFESA E SEGURANÇA KAY RALA XANANA GUSMÃO POR OCASIÃO DA VISITA À ACADEMIA DE DEFESA NACIONAL DO JAPÃO

10 de Março de 2009, Tóquio
Exmo. Senhor Presidente da Academia de Defesa Nacional
Ilustres Oficiais das Forças Armadas
Ilustres professores Jovens cadetes,

É com muito prazer que me encontro nesta Academia de Defesa Nacional e que agradeço o convite para me dirigir a vós, jovens cadetes, que procuram através de uma educação avançada, aliar conhecimentos científicos ao treino militar, para melhor cumprir a vossa missão e responsabilidade, enquanto futuros oficiais das Forças Armadas Japonesas.
Como sabem também eu fui militar, mas não propriamente por escolha ou especial aptidão. Aliás, eu, assim como os meus colegas na altura, não gostávamos da tropa e tentámos, enquanto isso nos foi possível, fugir ao serviço militar. Timor, nessa altura, fazia parte das colónias portuguesas e Portugal estava em guerra com três províncias africanas – nenhum de nós queria ir parar aos confins de África, sobretudo para participar numa guerra!
No entanto, o serviço militar era obrigatório e por isso foi publicada uma ordem, na qual, aqueles que não se apresentassem para cumprir o serviço militar, iriam ser procurados e mobilizados para a guerra.
Assim, eu, e muitos outros, fomos parar ao Centro de Treino para receber preparação para integrar as Forças do Exército, porque não queríamos ir para a guerra! Encontrei lá muitos colegas do liceu que não tinham acabado os estudos mas nessa altura já eram sargentos e eu, enquanto 1º Cabo, tinha que lhes bater continência. Das memórias que tenho desse tempo, três anos de serviço militar obrigatório, recordo que aprendemos o significado de organização e obediência. Foi, sem dúvida, uma Escola de Disciplina!
Findo o cumprimento de dever perante a Pátria Portuguesa, regressámos às nossas vidas civis e, passado algum tempo, foi-nos permitido sonhar com a nossa verdadeira Pátria, Timor-Leste.

Mas, em Dezembro de 1975, com a invasão indonésia, veio inevitavelmente a guerra, na qual acabei por participar activamente.

Comecei como Comandante de Pelotão e depois, porque havia necessidade de assistir politicamente a população, deixei a área militar para ser quadro político durante três anos.

Em 1977, a Indonésia desenvolveu grandes operações e foi destruindo os sectores de resistência, um por um. Eu, porque me encontrava na parte mais oriental do País, na ponta leste e mais afastada da fronteira com a Indonésia, pertencia ao último sector a ser desmantelado, vivendo muitas experiências de guerra.

Caros cadetes,

Durante a guerrilha muitas decisões difíceis tiveram que ser tomadas. Tínhamos que assumir a segurança das populações e ao mesmo tempo combater o inimigo.

Estávamos absolutamente isolados do mundo e sem apoio militar. Numa situação como esta as decisões não são discutidas, têm que ser cumpridas, porque é sempre uma questão de vida ou de morte e daí a importância da disciplina.

A superioridade militar da Indonésia reduziu drasticamente os nossos recursos humanos e materiais, enfraquecendo a nossa capacidade de resistência. Dos cerca de 30.000 efectivos e correspondente armamento que tínhamos, fomos reduzidos a pouco mais de 1.000 guerrilheiros, com cerca de 700 armas.

A maior parte dos líderes timorenses morreram entre os primeiros três a cinco anos da ocupação e eu, perante este cenário, já com todos os meus superiores tombados pela força inimiga, acabei por ser nomeado responsável pela região da guerrilha, em 1978, com a árdua tarefa de reorganização da luta.

Passando do quadro político para a liderança da resistência, tive a oportunidade de reflectir sobre as mudanças e ajustamentos necessários para conduzir o nosso Povo à vitória. Durante um ano estivemos a analisar as derrotas sofridas, a estudar os erros cometidos e a aprender com essas lições para mudar a nossa estratégia de guerrilha e para fortalecer a Resistência. Estudámos, durante aquele período, as tácticas de guerrilha usadas em todo o mundo e percebemos que nenhumas se coadunavam com a nossa realidade. Tentámos assim perceber a nossa própria guerra e aprender a sobreviver enquanto guerrilheiros. Este foi o ponto de viragem da nossa Resistência! Reorganizámos os poucos guerrilheiros que sobreviveram, reestruturámos a luta em pequenas forças móveis que pouco a pouco cobriram todo o território, e contámos com a participação abnegada do Povo, surgindo a Frente Clandestina.
Nesta altura o nosso mote já não era “Destruir o Inimigo”, para a Frente Clandestina o mote era “A Arte de Conviver com o Inimigo”.
Por outro lado, a nossa Resistência da Frente Armada inspirou-se no mote: “Conservar as Nossas Forças, Destruindo o Inimigo”; através da renovação de tácticas e novas acções para recuperar armas e reduzir as perdas humanas, até porque a proveniência do nosso material bélico era, precisamente, o próprio exército inimigo. Mas a desigualdade militar continuava a ser brutal e não tendo a capacidade de expulsar o inimigo, começámos a tentar destruí-lo psicologicamente, moralmente e militarmente, com pequenas mas contundentes acções.
O sucesso destas acções dependeu, em muito, da combinação de esforços colectivos e maior participação popular, sobretudo em doações: dinheiro, comida, roupa, informações e mesmo material de guerra.

Finalmente, conjugámos a nossa estratégia com uma maior coordenação com a Frente Diplomática que manteve sempre na agenda da Comunidade Internacional o caso de Timor-Leste como um caso não perdido.
Com a minha prisão em 1992 pelos indonésios, surgiu o novo líder da Resistência, o Comandante Taur Matan Ruak, também hoje aqui presente e actualmente Chefe do Estado- Maior das Forças Armadas.
O Comandante Ruak continuou o esforço de dotar as nossas acções de maior capacidade operacional e eficiência, mantendo sempre a “chama acesa” para não desesperarmos e para não desistirmos perante as perdas causadas pelo exército inimigo, até à nossa libertação.

Caros cadetes,
Hoje, somos uma Nação Independente!
Temos umas Forças Armadas que são maioritariamente provenientes da guerrilha, contando também com a participação da nova geração, mas estamos ainda longe de ter uma Força totalmente profissional e disciplinada.
A partir de 2004/2005 a nova geração de militares revelou que não tinha consciência da disciplina militar e, no ano seguinte, instaurou uma “rebelião” dentro da própria Instituição, a qual provocou o abandono dos quartéis de cerca de 600 efectivos. Esta situação desencadeou um clima de insegurança no País e uma série de outros problemas que acabaram por levar a confrontos entre as forças policiais e as forças militares. A falta de resolução desta crise culminou em 2008, quando um grupo rebelde armado, liderado por um ex-oficial, que nunca interiorizou o conceito de disciplina e responsabilidade militar, atentou contra a vida dos Chefes de Estado e do Governo. Se este acto por um lado foi inaceitável, por outro, acabou por ser um “mal necessário”, porque contribuiu para que a normalidade regressasse à Instituição Militar, à própria Polícia, também ela vítima dos acontecimentos que originaram a crise, e à sociedade em geral.

Os atentados do ano passado acabaram por servir como uma advertência final sobre a necessidade de corrigir e reformar as nossas políticas nacionais.
Neste sentido reorganizámo-nos e, de forma mais coordenada, procurámos o modelo certo para Timor-Leste, reunindo o consenso timorense e respeitando os passos e os tempos necessários à nossa realidade.
Como resultado obtivemos a resolução dos problemas pendentes, consequentes da crise de 2006, nomeadamente os dos chamados peticionários, dos deslocados internos e dos grupos armados rebeldes.

Senhoras e senhores,
Hoje, estamos fortemente empenhados na reforma do sector da segurança, a qual inclui a segurança interna, a defesa nacional, as informações e a protecção civil, entre outras.
Temos uma Força 2020, onde estão estabelecidas as linhas de orientação da estratégia de defesa nacional, entre elas a constituição de uma componente naval, força a criar não tanto por motivos defensivos perante uma eventual ameaça militar externa, mas sim para defender os nossos recursos naturais, nomeadamente a fauna marítima e a pesca.
Vamos também estabelecer uma Autoridade Marítima, pela qual a coordenação do trabalho conjunto das populações, da Polícia e das Forças Armadas pode dar mais segurança no nosso País e, por outro lado, neutralizar as ameaças transnacionais do mundo globalizado de hoje.
Para que estes objectivos se concretizem é fundamental que as nossas Forças Armadas tenham acesso a mais, e melhor, educação, formação e treino -componente crucial da nossa reforma.
Os desafios que se colocam à nossa Instituição Militar requerem a presença de profissionais com qualificações científico-técnico-militares, mas também com capacidade de pensamento crítico, e com competências de liderança, de tolerância e respeito pelos direitos humanos.

Os sonhos de melhores oportunidades, através da educação, vão agora para as novas e futuras gerações, que por circunstâncias histórias foram negadas à minha geração. Caros cadetes, Dirigindo-me a esta Academia de Defesa Nacional do Japão, fico satisfeito por ver alunos de várias nacionalidades.
A abertura da Academia a estudantes estrangeiros, é para mim alvo de grande regozijo, esperando que o apoio com bolsas de estudo a jovens timorenses, já concordado entre os nossos dois países, venha também a desenvolver a capacidade das nossas Forças Armadas. Se alguma coisa os 24 anos da luta pela libertação nos ensinaram foi que com cooperação, com coesão e visão colectiva, podemos aspirar a um futuro melhor para a nossa Nação.
A “luta” actual que Timor-Leste enfrenta é diferente da do passado mas nem por isso menos difícil e exige, mais uma vez, o envolvimento de todos os timorenses. Os obstáculos ao desenvolvimento sustentável e à estabilidade nacional não são “inimigos” que se vençam sem a constituição de Instituições fortes e organizadas, incluindo as Forças de Defesa de Timor-Leste. Finalmente, gostaria de terminar partilhando convosco que uma das lições mais nobres que se aprende num contexto de guerra é o valor da gratidão e da amizade. O Japão tem vindo a prestar inestimável apoio a Timor-Leste e, por isso, não posso terminar sem expressar o meu sentido “arigato” aos nossos amigos japoneses.

Muito obrigado!

Kay Rala Xanana Gusmão
10 de Março de 2009

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