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Saturday, 7 February 2009

Timor, Uma Interpretação
(Uma leitura identitária de Timor)

Quarenta dias em Timor Leste (para brevidade Timor) estimularam as minhas reflexões sobre a sua lógica e sentido. As sessões de formação de mais de cem horas com grupos diversificados também deram ocasião a maior variedade de estímulos. Vou comunicar com os leitores algumas dessas reflexões e pesquisas em linguagem corrente.

I Parte
Identidades recusadas

Nesta primeira parte, vamos passar em resumo algumas lógicas de identidade que Timor, recusou, como que guiado pelo "Dono do brilho, o Senhor da Luz", como diz uma oração narrativa ou hamulak (In Nuno da Silva Gomes, A literatura popular de tradição oral, em Timor Leste p31).
Será verdade, como alguém se exprimiu, que Timor conseguiu a independência e agora lhe falta identidade? Não concordo inteiramente. Diria antes que conseguiu a independência porque pressentia em si uma identidade original única no espaço do sudeste asiático. A percepção dessa identidade poderia não ser muito clara, mas tem dado força e direcção às suas opções. E têm sido opções corajosas e originais.
Também não concordo com o título de um livro realista e romanceado com título de Ilha das Trevas de José Rodrigues dos Santos. Direi porquê.
Podemos encontrar as balizas dessa identidade progressiva, quase diria contra várias lógicas, desde há vários séculos. Quem és tu, Timor, e como é que chegaste aqui? Como é que não foste tanta coisa que poderias ter sido e muitos te quiseram impor?
Como é que durante o alastrar da onda hindu e muçulmana, pelas ilhas de Sumatra, Java, Molucas, etc. ficaste de fora?
Sendo a última ilha da Sonda, Timor esperou que chegassem missionários em naus, de uma também última e mais pequena nação da Europa, quando a Holanda, nação protestante, foi usurpando e ocupando pela força as ilhas da hoje chamada Indonésia; e "empurrando" sucessivamente de cada uma delas essa nação colonizadora e enviar outros comerciantes e missionários para elas, para as tornar calvinistas e talvez mais "desenvolvidas", Timor manteve-se no caminho da fé católica, como o fizera também em grande parte a Ilha das Flores.
Os missionários dominicanos do século XVII, por Oe-cussi, Manatuto e Soibada, nas suas montanhas, semearam o Evangelho, deram a conhecer a Senhora do Rosário aos timorenses. A sua capelinha, no interior das montanhas de Samoro e os seminários do século XVIII, em Oe-cussi e Manatuto, iam acompanhar o crescimento cristão unido a Roma e a originalidade do seu Povo.
Os liberais deixaram Timor sem missionários e tinham outro desígnio para ele, forjado em Lisboa, em 1834, e, nem por isso, Timor se rendeu a outra lógica, além de ir deixando fermentar a sua religiosidade animista com o fermento cristão que soprava de Portugal e do centro católico do mundo.
Logo que foi possível, acolheu outros missionários, os Jesuítas e as Irmãs Canossianas. Os Jesuítas levaram a Timor a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, à Eucaristia e a Nossa Senhora de Lurdes, que disse de si mesma ser a "Imaculada Conceição". Era a mesma Senhora do Rosário, a cheia de graça. Ligaram-se sempre mais a esses dois Sagrados Corações, colunas da Igreja no sonho de S. João Bosco, hoje representado no fresco na Igreja de S. João Bosco em Laga (Timor). Pela catequese e pela cultura, o coração deste país estava cada vez mais nas montanhas e vales de Soibada, no mesmo Reino de Samoro.
Esta evangelização levou muitos timorenses a entregar-se a Jesus Eucarístico e a desagravar o seu Coração, nas primeiras sextas-feiras do mês; e a tornarem-se devotos de Nossa Senhora, a Imaculada Conceição, a da Medalha Milagrosa, da proclamação solene de 1854, pelo Papa Pio IX e das aparições de Lurdes, em 11 de Fevereiro de 1858, agora em celebração dos 150. Até hoje, estas devoções cristãs foram alastrando pelo povo e revigorando a pertença de identidade católica de Timor e esse coração identitário, como pude observar em Laclúbar, na primeira sexta-feira e primeiro sábado de Junho de 2008. Essas duas devoções estão representadas nas duas imagens existentes ainda hoje na grande Igreja do Sagrado Coração de Jesus que os Jesuítas inauguraram no dia 8 de Dezembro de 1904 em Soibada.
A construção da sua identidade crescia nesse sentido, quando o Inimigo de Jesus e de Maria tentou desferir um golpe em 1910, servindo-se de ideias loucas de que os missionários não deviam continuar em Timor. Um grupo de régulos, por razões pouco claras, reagiu à República e declarou que Portugal deixava de ser o país colonizador que eles queriam. Mas que um só régulo apoiando o governador da altura decidiu dizer não a esse corte com a nação Matrix. É estranha essa reviravolta a favor do poder colonial que era aparentemente representante de poderes maçónicos, anti-Igreja e anti-identidade timorense em formação. Seria porque pressentiram que o sentido profundo da nação protectora ia para além de uma tempestade maçónica de ocasião?
Que desígnio estranho estaria presente? E de Quem? A República maçónica "desejada" como colonizadora, apesar de manter uma lógica em desacordo com o que parecia ser o desígnio cristão e católico para Timor, que se ia confirmando? Todo o processo de construção da identidade, por linhas paradoxais, foi continuado com a reentrada das missionárias Canossianas e doutros missionários, nos anos vinte e trinta desse século. Construíram-se igrejas, multiplicaram-se as missões; mais escolas e seminários começaram a funcionar. Poucas, é certo, mas pedras fundamentais, para alicerçar a identidade e linha de rumo de Timor.
Na segunda Grande Guerra, a planta frágil em crescimento foi novamente perturbada. Agora o projecto a impor era japonês, shintoista, com imperador divinizado. Muito sofrimento. Muita humilhação e uma mulher forte, a "princesa mártir", Virgínia Sarmento, do reino de Samoro, do coração montanhoso de Timor, a dizer sim à fidelidade ao matrimónio cristão e aos Corações de Jesus e de Maria, cuja devoção bebera nas montanhas de Soibada, em sementeira dos Jesuítas e das Irmãs Canossianas. E foi acompanhada por outros mártires da perseguição japonesa e de traidores timorenses.
A perturbação da guerra não impediu que Timor fosse diocese da Igreja Católica em 1940, mas adiou a tomada de posse do seu primeiro bispo, D. Jaime Garcia Goulart, até 1945.
Após 30 anos de passos lentos, mas firmes, no crescimento da fé, em 1975, Timor foi de novo posto perante novas convulsões políticas e opções difíceis e algumas novamente paradoxais. E estas duraram agora 24 anos de martírio.
Em resumo, poderíamos dizer que Timor não aceitou o comunismo, nem o Islamismo, como já no passado, pelos séculos XIV e XV, não o tinha aceitado. Nem uma ocupação comunista precipitada, nem tão pouco a prolongada opressão da Indonésia durante vinte e quatro anos conseguiram mudar o rumo à originalidade misteriosa da identidade que Timor pressente que é a sua.
Rejeitou o calvinismo protestante da mão dos holandeses, em séculos passados. Não aceitou a ideologia liberal por 1834, quando Lisboa o privou dos seus poucos missionários, disse paradoxalmente não ao projecto anti-clerical e anti-católico da maçonaria republicana em 1910, que expulsou os seus missionários, Jesuítas e Irmãs Canossianas. Abalado Timor, contudo, tornou a dizer não a esse projecto. E logo que, na década seguinte, pôde começar a reaver os missionários, continuou a desenvolver a sua identidade de país cristão católico.
De 1975 a 1999, apesar das tentativas de fazer de Timor um país independente, mas comunista ou uma província integrada num grande país, para ser meio católico e meio muçulmano, Timor alicerçou mais a sua identidade católica, passando de menos de um terço de católicos para o país da mais alta percentagem de católicos, 95%, e o mais católico de todo o Oriente, como me dizia D. Alberto Ricardo, Bispo de Díli.
Agora, já independente, mas de identidade frágil, resistiu à tentativa de tornar ainda mais frágil na sua identidade católica pela sobreposição de uma lei que afastaria os seus jovens da formação católica nas escolas e os tornaria permeáveis ao islamismo e ao indiferentismo niilista.

II Parte
Timor, com desígnio de Ilha da Luz

(Continua-se aqui o tema do número anterior, guiado ainda pelo "Dono do Brilho e Senhor da Luz", da tradição oral secular de Timor).
Numa leitura rápida de algumas realidades e eventos histórico-religiosos de como Timor tem vindo a construir uma identidade, mostra-se que este país pode ter um desígnio para todo o Extremo Oriente, que supera o seu tamanho e o seu peso político. E não é uma ilha de trevas, mas uma Ilha de Luz.
A devoção a Nossa Senhora do Rosário, da vitória de Lepanto (1572), contra a tentativa de transformar a Europa cristã em país muçulmano, foi trazida, o mais tardar, por 1750, pelos dominicanos, com o seu rosário, para a concha montanhosa de Soibada, em Timor, e, já no dobrar dos séculos XIX-XX, as devoções ao Coração de Jesus e à Imaculada Conceição.
Hoje, como tivemos ocasião de presenciar nos quarenta dias de Timor, os pilares dos católicos timorenses são o rosário, primeiras sextas-feiras e primeiros sábados, ou seja, a sua vida cristã está centrada na Eucaristia e na Imaculada Conceição.
Como entre a Imaculada Conceição e o seu filho, a luta não pára, mas os timorenses, porém, vão distinguindo o joio do trigo e mantendo laços cristãos-católicos ao país matricial para a sua identidade. A Luz que, em 1917, apareceu em Fátima, a da "Senhora mais brilhante que o sol", foi chegando, como peregrina, também a seu tempo a Timor.
Existe, em Soibada, numa linda colina, o Santuário de Nossa Senhora de Aitara, onde celebrei no dia 8 de Junho de 2008. Dias antes, D. Alberto Ricardo, que frequentou o seminário de Soibada, dizia-me que era santuário nacional de Timor. A imagem de Nossa Senhora do Santuário apresenta-se como a de Lurdes, mas com a coroa das doze estrelas. O padre Francisco Xavier indicou, salvo lapso da minha memória, os anos vinte do século XX como ano da construção da capela, que já foi restaurada em anos mais recentes.
De toda a maneira, Soibada, pelos colégios das Irmãs Canossianas e dos Jesuítas e pela Igreja inaugurada a 8 de Dezembro de 1904, é bem o coração cristão católico de Timor e fonte da sua identidade. Outros marcos sinalizam a caminhada de Timor para o seu desígnio.
O bispo D. Jaime Garcia Goulart tomou posse em 1945, apesar de a catedral, cujo orago era já a Imaculada Conceição, ter sido destruída pelos japoneses.
A proclamação da Assunção de Nossa Senhora em corpo e alma ao céu, em 1950; a visita da Imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima, em 1951, como que de visita à terra que já era sua, preparou a inauguração da sua estátua sob o título da Imaculada Conceição, em 1954, no Largo Leicidere, em Díli. Desde então, aí ficou a proteger toda a cidade, a diocese e os Timorenses, seus filhos. Mas estes não ficaram inactivos.
De Julho de 1987, e por todo o Ano Mariano, e para o celebrar uma estátua da Imaculada Conceição da Capela de Fatubéssi, paróquia de Ermera, foi peregrina de todas as paróquias de Timor.
Junto da estátua da Imaculada Conceição do Largo de Leicidere é sagrado bispo D. Carlos Ximenes Belo, em 19 de Junho de 1988, em plena ocupação indonésia muçulmana, que, em 24 anos, tentou mudar o rumo de Timor. E o Ano Mariano foi encerrado em Agosto desse ano, junto da mesma estátua da Imaculada Conceição.
Também em 2 de Novembro de 1988, foi benzida a Nova Catedral de Díli (substituiu a que foi destruída pelos japoneses), dedicada à Imaculada Conceição, paradoxalmente, na presença do muçulmano Suharto (!), cujo regime, também paradoxalmente, a tinha ajudado a construir.
Bênçãos são bênçãos e a Catedral lá está como templo da glória de Deus, e homenagem à sua criatura mais divinizada, Maria, a Imaculada Conceição. Mas, pelo sim pelo não, podíamos dizer, João Paulo II, que se entregou todo a esta soberana Rainha do mundo, durante a sua visita a Timor, no dia 12 de Outubro de 1989, benze a Catedral pela segunda vez (!).
O ano de 1989 é data da queda do Muro de Berlim e do Império Soviético comunista e ateu e, em 6 de Fevereiro, D. Carlos Ximenes Belo enviou ao Secretário da ONU uma carta de alerta sobre a situação de Timor. E consagrou a Catedral da Imaculada Conceição no dia mais caro a Nossa Senhora, do dia 8 de Dezembro desse ano. A catedral ficou bem entregue!
Apesar de alguns martírios: massacre de 200, no cemitério de Santa Cruz (12.10.91), dois mortos, na Igreja de Motael (28.10.91), a década ficou assinalada com a entrega do Prémio Nobel da Paz a D. Carlos Ximenes Belo e ao Dr. José Ramos Horta, em 10 de Outubro de 1996. A identidade de Timor foi sendo reconfirmada.
E que dizer à estátua colossal de Cristo-Rei, construída na colina nascente da baía de Díli, inaugurada pelos poderes indonésios e benzida por D. Carlos Ximenes Belo, no dia 24 de Novembro de 1996? Quando Deus quer, até o burro de Balaão profetiza a favor do seu Povo.
A Igreja realizou uma Peregrinação da Imagem da Imaculada Conceição (réplica da de Leicidere) pelas paróquias de Timor, em 1997 e fez a sua entronização no Monte Ramelau com campal missa, presidida pelo bispo D. Carlos Ximenes Belo, em 7 de Outubro do mesmo ano.
O Padre Rui Gomes, Salesiano, dizia-me (28.06.2008) que foi, a partir deste ano, 1997, e desta peregrinação de Nossa Senhora, que se intensificou o movimento pró independência. Logo em Maio de 1988, o ditador Suharto é compelido a demitir-se; e, em 1999, é negociado o Referendo para escolher a integração ou a independência, que foi decidido pela ONU para 30 de Agosto do mesmo ano; e anunciados os seus resultados, em 4 de Setembro de 1999: 98% dos inscritos votaram, sendo 78,5% a favor da independência de Timor.
Desesperados aqueles que se consideravam os donos do país, reagiram com o Setembro Negro e a destruição de 75% das infra-estruturas e com os assanínios dos Padres Hilário Madeira, Francisco Soares e Francisco Dewanta, em Suai, a 5 de Setembro de 1999, das Irmãs Canossianas Hermínia e Celeste e dois diáconos em Manatuto e o Padre Jesuíta Albrecht Karim (12.09.99). E até a Casa do Bispo em Dili é incendiada a 6 do mesmo mês e o Bispo levado preso de helicóptero para Baucau. O Calvário não levou a Mãe da Igreja nem o seu Filho a desistirem dos seus desígnios, nem Timor tinha que desistir.
Em 7 de Outubro de 2001, realizou-se, como a Irmã Madalena, Concepcionista, me disse, uma Peregrinação ao "Santuário" da Imaculada Conceição do Ramelau, com subida na vigília, presentes os padres Apolinário e Alberto Ricardo (futuro bispo), indo D. Carlos Ximenes de helicóptero. Saíram da estrada às 23 horas, com tendas e comida e chegaram às 3h da manhã ao santuário, onde houve confissões e Eucaristia.
D. Alberto Ricardo é sagrado bispo em Leicidere, junto à estátua da Imaculada Conceição, em Maio de 2002, no mesmo mês em que foi proclamada a independência de Timor, em Tacitolu, praça em que João Paulo II celebrara, em 12 de Outubro de 1989.
O Dr. Ramos Horta foi vítima de um atentado, à porta da sua residência (11.02.08) e declarou, em 18 de Abril de 2008, aos meios de comunicação social "não poder explicar como estava vivo". "As balas desfizeram a parte inferior do pulmão direito, cortaram duas costelas no ponto em que ligavam à coluna vertebral, afectaram dois nervos importantes na região abdominal, e causaram feridas nas costas, que exigiram múltiplas intervenções cirúrgicas". O autor encontrou-se com o Dr.Ramos Horta em Quelicai, em 28.06.08, a quem lembrou a coincidência de o atentado ter sido no dia de Nossa Senhora de Lurdes, a Imaculada Conceição, e que isso pode ser uma "explicação".
O presidente afirmou ao autor que ninguém ainda lhe tinha falado dessa coincidência, mas que o médico que o tinha operado lhe dissera que ele "tinha alguém a olhar por ele, pois devia estar morto, porque quem atirou era bom atirador […] e que uma das balas se deteve a dois milímetros do coração e outra a dois da espinal medula". O Dr. Ramos Horta esteve no Santuário de Fátima, no sábado, 26 de Julho de 2008, declarando que viera em peregrinação pessoal de "agradecimento à Virgem Santíssima", pela protecção concedida no atentado de 11 de Fevereiro de 2008" e "pela vida, para continuar a servir o meu povo e a humanidade", como escreveu no Livro de Honra do Santuário de Fátima. Entrevistado no Telejornal da RTP, no dia 28.07.08, o Prémio Nobel declarou "que se tivesse morrido, haveria uma guerra civil; e que teria morrido se tivesse chegado ao hospital 10 minutos mais tarde e as hemorragias não tivessem sido estancadas de imediato". E "que Timor não seria livre se não fosse Portugal com a sua acção diplomática".
Timor pode ter pela frente novas surpresas e propostas de identidade, alheia ao seu desígnio, como tentativas impostas. A minha forte convicção é que se tratará mais uma vez de projecto falhado. Quase podíamos dizer, não em termos chamados de prova científica, mas de convicção firme, que Timor tem "os seus Soberanos" e o País já lhes foi entregue: o Sagrado Coração de Jesus, presente na Eucaristia, e a Imaculada Conceição.



Aires Gameiro, OH


Orden S. Joao de Deus

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